31/07/2021

O tempo

 

Foto de 1982, minha primeira unidade na PMESP (1ª Cia do 16º BPMM). Sou o sexto da esquerda para direita

Tinha cinco anos quando caí da escada ao pular degraus. Quebrei o braço. As brincadeiras em casa sempre eram seguidas de travessuras e punições. Lembro-me da minha vó, velhinha, protegendo meu irmão Misael, o preferido. Por pirraça, fingia brigar com ele pra vê-la brava. Na mesma época, ao ir à escola com o Misa, parávamos perto do matadouro municipal para ver os bois. Nem sequer imaginava que seriam abatidos.

A paixão pelo futebol iniciou algum tempo depois, quase na mesma época em que me apaixonei por uma coleguinha da classe. Perto dela, transpiravam minhas mãos, eu parecia um chafariz humano.

Adolescente, dei o primeiro mergulho no mar, em Angra dos Reis. Ali conhecia uma nova paixão. Mal sabia que daquele sentimento seria cativo. Também vivia cercado de irmãos e amigos.

Ir à São Paulo foi a solução encontrada para tentar uma colocação e garantir o futuro. Eram tempos difíceis. Sonhador, burlava a ansiedade com pensamentos onde tudo dava certo ao final.

O ingresso na Polícia Militar confirmou que o futuro já havia chegado em trinta suaves prestações anuais. Quando dei por mim já estava aposentado.

Resistente, tratei de me impor alguns outros desafios, mas percebi que o tempo é implacável. Com ele, a sensação de que minha capacidade de realizar aumenta enquanto proporcionalmente ele diminui.

Lembrei-me de quando li a biografia de Martinho Lutero. Fiquei impressionado com o seu drama de querer ser monge enquanto seu pai pressionava para que estudasse direito. Todos aqueles problemas já estavam há mais de 500 anos para trás.

Outro dia reencontrei alguns antigos companheiros do quartel no sepultamento de um amigo em comum. Local propício para reflexões, não pude furtar-me às minhas.

Com a ampulheta virada desde o nascer e com a certeza de que me resta menos que a metade do tempo já vivido, reflito: se cada ano que ficou registrado não há a menor possibilidade de mudança, qual imagem vou deixar na memória dos meus descendentes e conhecidos?

Uma canção de Nana Caymmi diz que “o tempo zomba do quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei, mas no fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer”.

A verdade é que precisamos parar de maltratar essa criança com a composição de histórias medíocres; afinal, assim como estranhamos nossos filhos tomarem forma e fazerem escolhas sem o controle de nossas rédeas, não é justo entregá-la à vala comum dos desafortunados. Não podemos deixar à posteridade apenas a tristeza de nossas mortes morais, espirituais e físicas.

26/07/2021

Almoço de domingo

 

Domingo, pouco antes do almoço. Enquanto da sala sinto o aroma da refeição se pronunciar, sou surpreendido com a distração da mente.

Em tempos de redes sociais excedentes em futilidades, descanso o celular sobre uma pequena mesa ao meu lado e entrego-me as lembranças.

As muitas tarefas realizadas me acolhem em satisfação e emprestam a sensação de obrigações cumpridas.

Ainda tenho muito a cumprir, responderia caso fosse inquirido. Mas conforta saber que até aqui tudo foi muito bem. A evidência disso é exatamente estar motivado a escrever no momento em que antecede ao almoço de domingo, sempre promissor e que aguça a salivação espontânea, pouco deixando margem para se pensar em outro assunto. Deduzo que seja a manifestação da paz de espírito, anseio de tantas pessoas.

Para manter-me grato ao criador por essa conquista exercito frequentemente a memória para não esquecer que essa era a minha busca, daí também não dou chances de abater-me com as tentativas que ainda não se realizaram, e isso renova meu ânimo. Nada foi fácil até aqui.

Quando jovem desejei o reconhecimento pela pessoa que me tornaria. Meu maior patrimônio seriam meus atos. Por isso justifico o motivo pelo qual não passei noites em trabalhos extras. E não faço aqui uma crítica a quem fez essa opção, apenas digo que não foi essa a minha.

Saber o que buscava contribuiu para que não precisasse esconder os momentos aparentes de decadência, por dois motivos: Eram aparentes, não me sentia naquela condição. E porque eu sabia que eram momentos. E momentos passam. Por isso transitei em paz e com dignidade do casebre ao condomínio de luxo, sabendo que ambos estavam sendo usufruídos com honestidade e que nenhum deles era a minha morada final.

Bom também saber que a maturidade trouxe o equilíbrio, embora a fotografia insista em me lembrar que aquela imagem do amigo mais velho no passado agora está em você. Graças a Deus por isso. Quantos companheiros que tive na jornada da vida que não conseguiram envelhecer? Aliás, erroneamente, alguns jovens depreciam o idoso quando deveriam simplesmente respeitar por terem conquistado algo que não sabem se terão, a longevidade.

Eu fico lembrando o quanto ficava refletindo sobre a vida e percebo que as minhas convicções do passado mudaram. Mas eu também mudei. E me sinto pleno. Apesar de menos potente. Menos ágil. Menos impulsivo. É aí que entendo a expressão: “Às vezes o menos é mais”.

Ficaria nessa divagação gostosa por muito mais tempo, mas agora já tem um almoço sobre a mesa. E este prazer é parte de uma história que vou começar viver agora.





PS. O texto não tem revisão

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Meus desejos Desejo ser uma pessoa livre, ter amigos desencanados, de mente aberta, conversa leve, sorriso solto e abraço franco. Reivindico...

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